É preciso passar pelas situações para saber o real valor que têm na nossa vida

Mais de 30 anos passados nesta luta contra a depressão resistente e nada. Desde o simples Xanax, passando por antidepressivos de todas as classes, antidepressivos com estabilizadores, com antipsicóticos atípicos e não atípicos, com outros antidepressivos de outras classes, imensas combinações, imensos efeitos secundários, ao ponto de quase não conseguir sair de casa com os tremores, com as tonturas que me levavam ao chão, terapia eletroconvulsiva a 150 euros a sessão, psicoterapia com vários psicólogos de várias vertentes, com sessões na média de 50 euros por sessão semanal durante vários anos. Enfim, só falta o internamento e certos tratamentos que custam 175 euros por sessão e que inicialmente tem que ser feitos por 30 dias.

Para onde me virar? Em especial quando já me esqueci o que é viver com(o) os outros. Em que todos os dias são um sacrifício nas tarefas mais básicas. E ainda ter de ouvir a opinião de quem me rodeia como se fosse só uma questão de eu querer. Que adormeço porque me deito tarde, que podia fazer mais, que devia sair mais, que sou eu que não quero! As pessoas não fazem ideia do que é ter uma depressão que não reage à medicação. E ainda criticam do alto da sua sorte de saberem o que está por trás das nuvens, quando eu nunca vi, quando eu não consigo mandar no que sinto, quando não basta querer.

Eu não gostei de levar várias anestesias e choque eléctricos que me causaram uma falta de memória terrível e que demorou a passar. Eu não quero passar o dia na cama com sentimentos de impotência e de não valer nada, que me deixam de rastos.

Eles não sabem e falam. E quando falam o que dizem ainda me faz sentir mais inútil e só não coloquei ainda fim a isto tudo porque sei que só vivo uma vez e sei que o que quero não é morrer, quero viver como qualquer outra pessoa. Quero poder ver o sol que para mim se mantém nublado. Saber como lidar com os sentimentos que me deixam de rastos. Ser capaz de sair à rua sem medo do que os outros pensam.

Um dia alguém fez uma comparação que talvez vos faça ter uma pequena ideia do que é sobreviver assim: é a situação de alguém que está a tentar nadar para não ir ao fundo e que de repente tem uma cãibra e começa a esbracejar ao máximo, quem está na margem e a nadar em volta diz para ele dar aos braços e nadar mas a pessoa quanto mais dá aos braços mais peso faz para o fundo por causa da tensão e mais se afoga.

Também sei que um dia o desespero vai ser mais forte que a pouca racionalidade que tenho e vou passar para o outro lado. Eu só queria ter as mesmas armas que quem vive tem. Não quero mais que isso.

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